ResumoO tornozelo que some dentro da meia, o chinelo que ficou apertado no fim do dia, a marca do elástico que demora a sair — o inchaço nas pernas é uma das coisas que a família mais vê e menos comenta, porque parece "só cansaço". Vale saber: inchaço é um sinal, não um diagnóstico. Ele acontece quando sobra líquido no tecido, e as causas são muito diferentes entre si — das veias das pernas, que trabalham pior com a idade, ao coração, aos rins, à imobilidade de quem passa o dia sentado e, com enorme frequência, aos próprios remédios em uso. Cada causa leva a uma conduta diferente, e é por isso que o comprimido "de tirar água" por conta própria costuma ser a pior saída. A Dra. Ana Laura Bersani (Geriatra, RQE 38440) avalia a queixa em Franca — presencial, domiciliar ou por telemedicina.
O que é o inchaço (edema)? É o acúmulo de líquido no espaço entre as células, embaixo da pele. Nas pernas ele aparece primeiro onde a gravidade puxa: tornozelo, dorso do pé, canela. O teste que a família faz sem saber é o mais clássico — apertar o dedo contra a canela e ver se fica uma covinha que demora a voltar. Isso confirma que há líquido; não diz de onde ele veio. Descobrir a origem é o trabalho da avaliação.
O que a família costuma reparar primeiro
Quase nunca a queixa chega como "está com edema". Chega assim:
- A meia marca fundo no tornozelo e a marca demora a sumir; o sapato ou o chinelo apertou;
- Incha à tarde e melhora de manhã, depois de uma noite deitado;
- A perna ficou pesada, cansada, e ele anda menos por causa disso;
- A pele esticou, brilhante, às vezes com coceira, descamação ou manchas escuras no tornozelo;
- O peso subiu rápido — dois, três quilos em poucos dias, sem ter mudado a alimentação;
- Ele passou a dormir com mais travesseiros, ou acorda à noite com falta de ar.
Os dois últimos são os que merecem mais atenção: peso que sobe depressa e falta de ar deitado apontam para o coração e não devem esperar.
O que pode estar por trás
- Insuficiência venosa crônica — a causa mais comum de perna inchada nos dois lados. As válvulas
das veias trabalham pior com os anos, o sangue custa a subir e o líquido escapa para o tecido. Piora ao fim do dia, melhora com a perna elevada, e costuma vir com aquelas manchas escuras e a pele mais fina no tornozelo;
- Insuficiência cardíaca — quando o coração bombeia com dificuldade, o líquido se acumula. Aqui o
inchaço vem acompanhado de falta de ar aos esforços ou deitado, cansaço fora do comum e ganho rápido de peso;
- Doença dos rins — rins que filtram menos retêm líquido e sal; o inchaço pode aparecer também no
rosto e nas pálpebras, principalmente pela manhã;
- Doença do fígado e desnutrição — sem proteína suficiente no sangue, o líquido não fica dentro do
vaso. Em quem vem perdendo peso e comendo pouco, essa possibilidade entra na conta;
- Medicamentos — esta é a causa mais subestimada de todas. Vários remédios muito usados na terceira
idade podem provocar inchaço nas pernas: alguns anti-hipertensivos, anti-inflamatórios, corticoides, certos remédios para dor neuropática e para diabetes. Quanto mais caixas na mesa, maior a chance — é o terreno da polifarmácia. Nunca suspender nem trocar nada por conta própria: isso se revisa na consulta;
- Ficar muitas horas sentado ou parado — a panturrilha é a bomba que empurra o sangue de volta.
Quem passa o dia na poltrona perde essa bomba, e o líquido desce. É comum depois de uma internação ou de uma fase de dor que reduziu a caminhada — ver perda de força nas pernas e dor crônica no idoso;
- Trombose venosa profunda — um coágulo em uma veia da perna. Aqui o padrão é diferente: **uma
perna só**, inchaço que apareceu depressa, dor na panturrilha, calor e vermelhidão. É urgência;
- Infecção de pele da perna (erisipela ou celulite) — vermelhidão que se espalha, calor, dor e
febre. Também não espera.
A armadilha do "comprimido de tirar água"
É a cena mais frequente: alguém da família encontra em casa um diurético — que sobrou de um tratamento antigo ou foi receitado para outra pessoa — e oferece "só para desinchar".
O inchaço até cede por alguns dias. Mas o remédio não trata a causa e, no idoso, cobra caro: pode provocar desidratação, queda de pressão ao levantar, tontura, queda, alteração dos sais do sangue (sódio e potássio) e piora da função dos rins. Quando a origem do inchaço é venosa ou de imobilidade — que são as mais comuns —, o diurético simplesmente não é o tratamento indicado.
O mesmo vale para o caminho oposto: não se corta líquido por conta própria. Beber menos água não desincha a perna e aumenta o risco de desidratação. Se há restrição de líquido ou de sal, ela vem do médico que acompanha, com uma quantidade definida.
Quando é emergência — e quando é avaliação
É emergência agora — procure pronto-socorro ou chame o SAMU (192) se houver:
- falta de ar, respiração curta, dificuldade de respirar deitado ou dor no peito;
- uma perna só que inchou de um dia para o outro, com dor na panturrilha, calor ou vermelhidão;
- pele da perna vermelha, quente e dolorida, com febre ou calafrio;
- confusão mental ou sonolência que apareceu de repente;
- inchaço que subiu para a barriga ou para o rosto em poucos dias.
É avaliação, sem pânico, mas sem adiar — agende consulta quando:
- o inchaço apareceu e permaneceu, mesmo sem doer;
- ele piora ao longo do dia e não some depois de uma noite de sono;
- começou ou piorou depois de um remédio novo ou de mudança de dose;
- há ferida, rachadura ou pele muito fina no tornozelo, que abre com facilidade;
- a perna pesada está fazendo ele andar menos e sair menos de casa.
Como é a avaliação
Na consulta geriátrica, o inchaço é examinado dentro do conjunto — porque a causa quase nunca é uma só:
1. Escutar a história — desde quando, se é nas duas pernas ou em uma, se melhora dormindo, o que mudou na rotina e nos remédios nas últimas semanas; 2. Examinar as duas pernas, a pele, os pulsos dos pés, o coração, o pulmão e o abdome — e medir o peso, que é um dos melhores termômetros do líquido acumulado; 3. Revisar todos os medicamentos em uso, inclusive os de venda livre, chás e suplementos, atrás dos que causam ou pioram o edema; 4. Pedir exames quando indicado — para avaliar rins, coração, fígado, proteínas do sangue e tireoide, conforme o quadro — e olhar a pressão arterial de perto, já que tratamento e inchaço conversam entre si (ver pressão alta no idoso); 5. Medir o impacto funcional — quanto a perna pesada reduziu a caminhada, o risco de queda e o que ele deixou de fazer.
Um cenário ilustrativo comum: o filho leva o pai à consulta por causa dos tornozelos inchados, já com um diurético comprado na farmácia. Na revisão das caixas, aparece um remédio para pressão iniciado seis semanas antes — bem quando o inchaço começou. A conduta passa a ser rever esse esquema, e não empilhar mais um comprimido.
O que ajuda em casa — enquanto a avaliação não acontece
Nenhuma dessas medidas trata a causa, mas todas são seguras e aliviam:
- Elevar as pernas por 20 a 30 minutos, algumas vezes ao dia, com os pés acima da altura do quadril
— no sofá, com almofadas, ou com o pé da cama levemente levantado;
- Não ficar horas na mesma posição — nem sentado, nem em pé parado. Levantar e caminhar um pouco a
cada hora já muda o quadro, e mexer o tornozelo sentado (subir e descer a ponta do pé, como quem pisa no pedal) é a panturrilha bombeando;
- Cuidar da pele — hidratar as pernas todos os dias e olhar atrás de rachadura, ferida ou
vermelhidão. Pele inchada rompe fácil e infecta com facilidade;
- Pesar sempre no mesmo horário, de preferência pela manhã, e anotar. Ganho rápido de peso é
informação valiosa para a consulta;
- Levar todas as caixas de remédio à avaliação, inclusive o que "não é remédio";
- Meia de compressão só com orientação médica — ela ajuda em vários casos, mas pode fazer mal em
quem tem má circulação arterial. Força e modelo dependem do exame, não da vitrine da farmácia.
Perguntas frequentes
Perna inchada em idoso é normal? +
É frequente, mas não no sentido de "não precisa cuidar". O inchaço mostra que há líquido acumulado no tecido — e a origem pode estar nas veias, no coração, nos rins ou em um remédio em uso. Inchaço que apareceu, que permanece ou que vem piorando merece avaliação, mesmo sem dor.
Posso dar um remédio para tirar água por conta própria? +
Não. O diurético faz o inchaço ceder por alguns dias e dá a impressão de resolver, mas não trata a causa e pode provocar desidratação, queda de pressão, tontura, quedas e alteração dos sais do sangue e da função dos rins. Quando a causa é venosa ou de imobilidade, ele nem é o tratamento indicado.
Quando o inchaço nas pernas é urgente? +
Procure atendimento imediato se houver falta de ar, dor no peito, dificuldade de respirar deitado ou confusão mental repentina. Também é urgente quando uma perna só incha de um dia para o outro com dor, calor e vermelhidão na panturrilha, ou quando a pele fica vermelha, quente e dolorida com febre.
Meia de compressão ajuda? +
Pode ajudar em parte dos casos, sobretudo quando o inchaço vem das veias — mas não serve para todo mundo: em quem tem má circulação arterial nas pernas, a compressão pode fazer mal. Força e modelo dependem do exame, por isso é orientação individual do médico.
Agende uma avaliação
Se as pernas do seu pai ou da sua mãe estão inchadas, o caminho não é desinchar por fora nem esperar passar: é descobrir de onde vem o líquido. A avaliação olha o inchaço junto do coração, dos rins, das veias, dos remédios em uso e do quanto isso já reduziu a caminhada e aumentou o risco de queda. Pode ser feita com a Dra. Ana Laura Bersani (Geriatra, RQE 38440), em Franca — presencial, domiciliar ou por telemedicina. Para agendar, chame no WhatsApp (16) 99174-0302.
Referências
- Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) — avaliação geriátrica ampla, revisão de
medicamentos e preservação da capacidade funcional.
- Associação Médica Brasileira (AMB) — diretrizes de abordagem diagnóstica do edema de membros
inferiores e das doenças cardiovasculares.
- Organização Mundial da Saúde (OMS) — envelhecimento saudável, cuidado integrado da pessoa idosa e
manutenção da autonomia.