ResumoQuase sempre a família descobre a escara quando ela já está aberta — no banho, na troca da fralda, quando alguém sente um cheiro diferente. Mas a lesão por pressão não começa ali: ela começa como uma área de pele vermelha que não clareia quando você aperta com o dedo, e esse é o momento em que dá para agir. A boa notícia é que a maior parte dessas feridas é evitável, e a prevenção se resume a três coisas feitas com regularidade: aliviar a pressão, manter a pele limpa e seca e garantir comida e líquido suficientes. O que não se faz em casa é tratar ferida já instalada por conta própria — escolher pomada ou curativo depende de exame. A Dra. Ana Laura Bersani (Geriatra, RQE 38440) acompanha idosos com restrição de mobilidade em Franca — em casa, no consultório ou por telemedicina.
O que é uma escara? O nome técnico atual é lesão por pressão (antes chamada de úlcera de decúbito). É a lesão da pele e do tecido embaixo dela causada pelo peso do corpo comprimindo uma mesma região por tempo prolongado, quase sempre sobre um osso saliente. Enquanto há pressão, o sangue não circula bem naquele ponto: o tecido fica sem oxigênio e começa a sofrer. Dois outros fatores somam-se à pressão e explicam por que a ferida às vezes aparece rápido: o atrito e o cisalhamento — a pele sendo arrastada quando a pessoa é puxada na cama ou escorrega com a cabeceira alta — e a umidade, que amolece a pele e reduz sua resistência.
As regiões de risco e o sinal que quase ninguém vê
A lesão aparece onde o osso é mais próximo da pele. Vale olhar, todos os dias:
- Sacro e cóccix — a base da coluna, região mais comum em quem passa muito tempo deitado de costas;
- Calcanhares — a segunda mais comum, e uma das mais fáceis de proteger;
- Quadril lateral (trocânter), em quem fica de lado;
- Orelhas, principalmente sob o elástico de óculos ou do cateter de oxigênio;
- Cotovelos, omoplatas e nuca;
- Joelhos, tornozelos e dedos dos pés, onde um pé encosta no outro ou na cama;
- Qualquer ponto sob dispositivo — sonda, imobilizador, meia elástica, fralda apertada.
O sinal mais precoce é discreto: uma área vermelha que permanece vermelha quando você pressiona com o dedo. Pele saudável clareia sob a pressão do dedo e a cor volta em seguida; a área em risco não clareia. Em pele mais escura essa mudança é difícil de enxergar — nesse caso, procure diferença de tom ou de brilho, calor, endurecimento, amolecimento ou dor naquele ponto em comparação com a pele ao lado. Vermelhidão que persiste depois de algumas horas sem pressão, bolha, dor nova ao ser mexido ou pele endurecida são motivos para comunicar a equipe de saúde no mesmo dia.
Quem tem mais risco
O risco não é igual para todo mundo. Ele aumenta com:
- Imobilidade — pessoa acamada, em cadeira de rodas, após fratura, após AVC ou em demência avançada;
- Perda de peso e alimentação insuficiente, especialmente pouca proteína — veja
- Umidade constante por perda de urina ou de fezes, ou por suor; a
incontinência urinária tem causa e tem tratamento, e tratá-la é parte da prevenção;
- Desidratação, que deixa a pele menos elástica;
- Pele frágil e fina, comum na idade avançada;
- Diabetes e problemas de circulação, que reduzem a chegada de sangue à pele;
- Dor não controlada — quem sente dor ao se mover para de se mover;
- Sedação e remédios que deixam a pessoa mais parada ou sonolenta;
- Alteração da sensibilidade, quando a pessoa não sente o desconforto que normalmente a faria mudar
de posição.
Pilar 1 — aliviar a pressão
É o pilar que mais muda o desfecho, e ele é sobre rotina, não sobre produto.
- Reposicionar com regularidade. No leito, a referência mais usada é a cada duas horas; na cadeira,
com intervalos menores, porque a pressão se concentra numa área pequena. Quem ainda consegue se mover deve ser estimulado a se reajustar sozinho várias vezes por hora;
- Usar travesseiros para afastar as saliências. Um travesseiro entre os joelhos e os tornozelos na
posição de lado; travesseiros sob as panturrilhas para deixar os calcanhares no ar, sem tocar o colchão — é a medida mais simples e uma das mais eficazes;
- Preferir a posição de lado inclinada a deitar totalmente sobre o quadril, o que joga todo o peso
no trocânter;
- Manter a cabeceira o mais baixa possível dentro do que a pessoa tolera: cabeceira muito elevada
faz o corpo escorregar e arrasta a pele do sacro;
- Nunca arrastar. Erguer com lençol móvel, de preferência com duas pessoas. Puxar pelo braço ou
deslizar o corpo sobre o lençol machuca a pele por dentro;
- Considerar uma superfície que redistribua a pressão — colchão apropriado e almofada de assento
adequada. É apoio, não substituto do reposicionamento. E almofada em anel ou boia não é indicada: concentra a pressão na borda e pode causar a lesão;
- Manter movimento dentro do possível — sentar na beira da cama, ficar de pé com apoio, fisioterapia.
Movimento é prevenção;
- Anotar em uma folha quem mudou a posição, a que hora e para qual lado. Quando o cuidado é
revezado, a folha é o que evita a falha silenciosa de "achei que alguém já tinha virado".
Pilar 2 — pele limpa, seca e sem atrito
- Inspecionar a pele todos os dias, com luz boa, no banho ou na troca — passando por todas as
regiões de risco listadas acima. É a única forma de pegar o começo;
- Limpar com água e sabonete suave e secar sem esfregar, com atenção às dobras;
- Hidratar a pele seca e íntegra, longe de qualquer ferida. E **não massagear área avermelhada sobre
osso saliente** — a massagem no ponto já comprometido piora a lesão;
- Trocar a fralda assim que necessário, sem esperar horário. Umidade e resíduo de urina ou fezes
amolecem a pele e abrem caminho;
- Deixar o lençol bem esticado, sem vincos, costuras grossas ou migalhas, e evitar plástico em
contato direto com a pele;
- Conferir o que aperta — elástico de fralda, meia elástica, sonda, cateter de oxigênio na orelha,
imobilizador. Dispositivo mal ajustado é causa frequente de lesão em lugar inesperado.
Pilar 3 — comer e beber o suficiente
Pele se reconstrói com material. Perda de peso e ingestão insuficiente de proteína estão entre os fatores de risco mais consistentes, e também entre os mais tratáveis.
- Oferecer refeições menores e mais frequentes, com fonte de proteína distribuída ao longo do dia;
- Oferecer líquido em intervalos regulares, sem esperar a pessoa pedir — no idoso a sede é um aviso
que chega tarde;
- Cuidar da boca e dos dentes, porque dificuldade de mastigar reduz silenciosamente o que entra;
- Levar a questão nutricional à consulta. Suplemento alimentar pode ajudar em situações
específicas, mas a indicação, o tipo e a quantidade são decisão profissional, e não algo para começar por conta própria.
O que não fazer — a parte que mais engana
- Não escolher pomada, creme cicatrizante ou curativo por conta própria. A escolha depende do
estágio da ferida, de haver ou não infecção e da quantidade de secreção. Produto inadequado atrasa a cicatrização;
- Não usar receita caseira na pele — açúcar, clara de ovo, mamão, pasta de dente, antisséptico
colorido. Além de não tratar, o corante esconde a evolução da ferida de quem vai avaliar;
- Não massagear proeminência óssea avermelhada;
- Não usar almofada em anel ou boia;
- Não usar água muito quente nem secar com atrito;
- Não deixar de contar. Muita família adia o relato por vergonha ou por medo de ser julgada. Falar
cedo é o que permite tratar cedo.
Quando procurar avaliação sem esperar
- Área vermelha que não clareia e continua lá algumas horas depois de aliviar a pressão;
- Bolha, pele aberta ou crosta escura sobre região de osso saliente;
- Sinais de infecção — secreção, odor forte, calor, vermelhidão que se espalha, endurecimento ao
redor ou dor que aumenta;
- **Febre, prostração, recusa de comida ou
confusão mental que apareceu de repente** — no idoso, a infecção frequentemente se anuncia assim, e isso é procura de atendimento no mesmo dia;
- Ferida que cresce ou que não mostra melhora nenhuma no acompanhamento.
Nessas situações, quem examina define a conduta. Ferida instalada precisa de avaliação presencial — atendimento domiciliar costuma ser o formato mais adequado quando sair de casa é difícil ou a pessoa está acamada. A consulta geriátrica entra para o que está por trás do risco: revisão dos medicamentos, controle da dor, nutrição, tratamento da incontinência e organização do plano de cuidado. E a telemedicina funciona bem para orientar a família, revisar o risco e ajustar a rotina de prevenção — mas não substitui o exame da ferida quando ela já existe. Quando o cuidado tem foco em conforto e qualidade de vida, a prevenção de lesão por pressão é parte central dos cuidados paliativos.
Quem cuida também precisa de plano
Virar alguém a cada duas horas, dia e noite, não é tarefa para uma pessoa só. Quando o revezamento não está combinado por escrito, ele desaba sobre quem mora junto — e é aí que a prevenção começa a falhar, não por falta de amor, mas por exaustão. Dividir a escala, aceitar ajuda e pedir orientação a cuidadores é conduta, não fraqueza; veja também sobrecarga do cuidador.
Perguntas frequentes
Escara é sinal de descuido da família? +
Não necessariamente. A lesão por pressão é largamente evitável, mas ela também aparece em situações de cuidado atento — quando a pessoa tem imobilidade importante, perda de peso, incontinência, pele frágil ou está em fase final de doença. O que muda o desfecho não é culpa, é organização: reposicionamento regular, inspeção diária da pele, controle da umidade e alimentação adequada. Se uma área vermelha apareceu, o caminho é ajustar o plano de cuidado e comunicar a equipe de saúde, não procurar culpado.
De quanto em quanto tempo preciso mudar a posição do idoso acamado? +
A referência mais usada na orientação a cuidadores é reposicionar a cada duas horas quando a pessoa está no leito, e com intervalos menores quando está sentada, porque na cadeira a pressão se concentra em uma área pequena. Esse intervalo é um ponto de partida, não uma regra fixa: quem tem pele muito frágil, já teve lesão antes ou apresenta vermelhidão precoce pode precisar de trocas mais frequentes. Quem consegue se mover deve ser estimulado a se reajustar sozinho várias vezes por hora. O intervalo ideal para cada pessoa é definido na avaliação.
Posso passar alguma pomada na área vermelha? +
Não é indicado escolher pomada, creme cicatrizante ou curativo por conta própria. A escolha do produto depende do estágio da lesão, da presença de infecção e da quantidade de secreção — informações que exigem exame da ferida por um profissional. Produto errado atrasa a cicatrização e pode piorar a pele em volta. Também não se deve usar receita caseira (açúcar, clara de ovo, mamão, antisséptico colorido) nem massagear a área avermelhada. Sobre pele seca e íntegra, longe de qualquer ferida, hidratante é medida geral de cuidado. Para uma área que já mudou de cor ou abriu, o certo é avaliação.
Colchão pneumático resolve o problema? +
Ajuda, mas não substitui o reposicionamento. Colchões e almofadas que redistribuem a pressão reduzem a carga sobre as proeminências ósseas e são um apoio importante em quem tem pouca mobilidade, principalmente à noite. Ainda assim, nenhuma superfície elimina a necessidade de mudar de posição, inspecionar a pele todos os dias e cuidar da umidade e da alimentação. Vale lembrar também que almofadas em formato de anel ou boia não são indicadas: elas concentram a pressão na borda e podem provocar a lesão que se queria evitar.
Referências
- Organização Mundial da Saúde (OMS) — recomendações sobre segurança do paciente, cuidado de pessoas com dependência funcional e envelhecimento saudável.
- Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) — orientações sobre avaliação geriátrica ampla, síndrome da imobilidade e cuidado do idoso com restrição de mobilidade.
- Associação Médica Brasileira (AMB) — diretrizes sobre prevenção e avaliação de lesões por pressão e sobre abordagem nutricional no paciente acamado.